Ansiedade, adaptação à rotina, socialização e expectativas familiares marcam o início do ano letivo
O retorno às aulas representa uma das transições mais significativas na rotina de crianças e adolescentes ao longo do ano. Após semanas de férias, com horários flexíveis, maior tempo de lazer e menos exigências, a retomada das atividades escolares pode provocar insegurança, resistência, cansaço e alterações emocionais que merecem atenção.
De acordo com a psicóloga Ana Paula Savagnago, esse impacto é natural e esperado, especialmente nos primeiros dias. “A volta às aulas representa uma mudança importante. Em crianças menores, isso pode aparecer por meio de choros, birras ou queixas físicas. Já nos adolescentes, é comum observar isolamento, desmotivação ou oscilações de humor”, explica.
Segundo a profissional, sentir ansiedade no início do ano letivo é normal e faz parte do processo de adaptação. “Essa ansiedade tende a diminuir à medida que a criança ou o adolescente se familiariza com a rotina, com os colegas, professores e com o ambiente escolar”, afirma.
No entanto, Ana Paula alerta que há situações que exigem atenção. “Quando a ansiedade se mantém intensa por semanas e interfere no funcionamento diário — como recusa frequente em ir à escola, crises de choro, alterações importantes no sono e no apetite ou sofrimento emocional persistente — ela deixa de ser esperada e passa a ser um sinal de alerta.”
Reconstrução da rotina deve ser gradual
A organização da rotina é um dos pilares para um retorno mais tranquilo às aulas. A psicóloga ressalta que esse processo deve acontecer de forma progressiva e previsível. “Retomar os horários de sono aos poucos, organizar um tempo fixo para os estudos e, ao mesmo tempo, preservar momentos de lazer são estratégias fundamentais. Crianças e adolescentes se beneficiam muito de rotinas claras, combinadas com antecedência e acompanhadas de explicações”, orienta.
Ela destaca que mudanças bruscas tendem a aumentar o estresse. “Quando a criança entende o que está acontecendo e sabe o que esperar, ela se sente mais segura emocionalmente”, garante.
Outro ponto sensível é a cobrança por resultados acadêmicos logo nos primeiros dias de aula. Para Ana Paula, o início do ano deve ser visto como um período de adaptação, não de exigência máxima. “A pressão precoce pode aumentar a ansiedade e prejudicar o rendimento. O foco inicial deve estar na organização, no vínculo com a escola e na compreensão das novas demandas. Os resultados acadêmicos são consequência de um processo, não um ponto de partida”, ressalta.
Expectativas excessivas por parte dos pais também podem gerar impactos negativos. “Quando a criança sente que só é valorizada pelo desempenho, ela passa a associar amor e aceitação a resultados. Isso pode favorecer medo de errar, baixa autoestima, perfeccionismo disfuncional e até desmotivação escolar”, alerta a psicóloga.
Frustrações fazem parte do processo de crescimento
Novas turmas, professores e conteúdos podem gerar frustrações e inseguranças, especialmente no início do ano. Segundo Ana Paula, o acolhimento emocional é essencial nesses momentos. “Validar os sentimentos é o primeiro passo. A frustração faz parte do processo de crescimento, principalmente diante de mudanças. Ajudar a criança a nomear o que sente e compreender que a adaptação leva tempo fortalece a resiliência emocional”, explica.
Ela reforça que minimizar ou desqualificar esses sentimentos pode intensificar o sofrimento.
“Quando o adulto invalida a emoção, a criança tende a se sentir incompreendida.”
Mudança de escola e desafios de pertencimento
Para crianças e adolescentes que mudam de escola, o início do ano pode ser ainda mais desafiador. “A mudança envolve perdas simbólicas importantes: amigos, referências e a sensação de pertencimento. Medo de não ser aceito, insegurança social e queda inicial na autoestima são comuns”, aponta. Nesses casos, o apoio familiar e o diálogo constante são fundamentais. “A parceria entre família e escola ajuda muito a tornar esse processo mais seguro e acolhedor”, complementa.
A timidez ou dificuldades de socialização também podem se intensificar neste período. De acordo com a psicóloga, isso pode se manifestar por meio de isolamento, silêncio excessivo em sala de aula ou evitação de atividades em grupo. “É importante diferenciar timidez, que é uma característica individual, de sofrimento emocional. Forçar interações costuma ter efeito contrário. O ideal é respeitar o tempo da criança e oferecer apoio, sem pressionar”, orienta.
Escola tem papel central no acolhimento
A escola desempenha um papel fundamental para tornar o retorno mais leve e seguro. “Atividades de integração, escuta ativa, flexibilização inicial das demandas e atenção ao emocional favorecem um ambiente mais acolhedor”, destaca Ana Paula. Ela ressalta ainda que professores e equipes pedagógicas são essenciais para a identificação precoce de sinais de sofrimento emocional.
A psicóloga recomenda buscar apoio profissional sempre que o sofrimento emocional for evidente. “Recusa persistente em ir à escola, crises intensas de ansiedade, regressões comportamentais importantes ou prejuízo significativo no funcionamento social e acadêmico indicam a necessidade de intervenção”, diz. Segundo ela, agir cedo faz toda a diferença. “A intervenção precoce evita que o sofrimento se torne crônico. Quando o emocional é cuidado, a aprendizagem, os vínculos e o desenvolvimento acontecem de forma mais consistente e saudável”, finaliza.
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