Safra de soja com produtividade desigual
Distribuição irregular de chuvas favoreceu determinadas localidades enquanto outras enfrentam produtividade abaixo de 40 sacas por hectare; Sindicato já registrou aumento de 30% nos pedidos de Proagro, e IBGE fará levantamento específico sobre as perdas no município
A colheita da soja em Santo Augusto está apenas no início, mas os primeiros números já revelam um cenário dividido: enquanto produtores de localidades que receberam maior volume de chuvas registram produtividade entre 50 e 60 sacas por hectare, agricultores de regiões com déficit hídrico colhem safras inferiores a 40 sacas — e alguns ainda aguardam o começo da colheita com expectativas de apenas 35 sacas. A disparidade, causada pela distribuição irregular das precipitações ao longo do ciclo da cultura, já mobiliza o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, que intensificou o encaminhamento de pedidos de Proagro, e deve resultar em um levantamento específico do IBGE para quantificar o percentual de perdas no município.
Onde choveu mais, colheita surpreende positivamente
Localidades como São Jacó, Boa Vista e Costa do Turvo concentram as melhores notícias desta safra. Nessas regiões, o volume de chuvas foi superior ao verificado em outras partes do município, e os resultados aparecem nos números: produtividade entre 50 e 60 sacas por hectare, patamares considerados satisfatórios para o padrão regional. A informação é de Luiz Carlos Pommer, vice-presidente e técnico em agricultura do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santo Augusto, que acompanha de perto a evolução da colheita em todo o território municipal. O desempenho mais expressivo desta safra, no entanto, vem dos sistemas irrigados — que lideram as colheitas já em andamento. O produtor Sandro Mariotti, que opera dois pivôs de irrigação em sua propriedade, contabiliza resultados que destoam completamente do cenário de perdas vivido por parte dos agricultores: um dos pivôs produziu 100 sacas por hectare e o outro alcançou 101,14 sacas por hectare. “A tendência dos outros é dar um pouco menos. E o sequeiro, não tenho ideia ainda”, comentou Mariotti, reconhecendo que boa parte da colheita em sua propriedade — a área sem irrigação — ainda nem começou.
De acordo com a Emater-RS/Ascar, a média da colheita no município é de 50 sacas por hectare e cerca de 25% de área já foi colhida. Ainda segundo eles, na localidade de São Pedro, há registro de produtor colhendo 70 sc/há; na Esquina Chiusa, algumas áreas registrando 68sc/ha; em São Jacó há mais variedade de produtividade, de 60 a 80 sc/ha;
“Lavoras que serão colhidas em início de abril devem apresentar uma produtividade de 50 sc/ha”, comentou o extensionista Dhonathã Rigo.
As pancadas de chuva registradas na região no final de semana e no início desta semana, que poderiam suscitar preocupações quanto a eventuais danos à colheita em andamento, foram avaliadas com relativa tranquilidade por Pommer. Segundo ele, até o momento as precipitações não causaram problemas e, na verdade, têm servido para equalizar o desenvolvimento das lavouras e completar o ciclo de enchimento de grãos naquelas que ainda estão em estágio final de maturação.
Déficit hídrico castiga outras localidades e derruba produtividade
Em contraste, localidades como São Valentin, São Pedro, Bela Vista, Passo da Lage, Pedro Paiva e Rincão dos Paivas registraram precipitações insuficientes durante o ciclo da soja. O resultado é uma quebra significativa de produção, com agricultores colhendo safras muito abaixo do esperado. Pommer destaca que o Sindicato está visitando essas propriedades e encaminhando pedidos de Proagro para os produtores que se enquadram nas condições de perda. Um desses agricultores é Maurício Duarte. Ainda sem iniciar a colheita no momento em que conversamos com ele, Duarte projeta um resultado desanimador: “A previsão é de em torno de 35 sacas por hectare em minha propriedade”, estimou. O número representa menos da metade do que os produtores irrigados da mesma região estão obtendo nesta safra, e exemplifica de forma concreta a magnitude da disparidade que o município enfrenta.
Proagro: demanda cresce 30% e Sindicato intensifica atendimento
O reflexo das perdas já se faz sentir nos números do Proagro — o programa federal de seguro agrícola voltado a cobrir perdas decorrentes de eventos climáticos. E isso com a colheita ainda no início: segundo Pommer, aproximadamente 30% dos agricultores do município já formalizaram pedidos ao programa nesta safra, um aumento considerável em relação ao ano anterior. “Não vai ser todo mundo, pois tem uma porcentagem colhendo bem, outra pedindo Proagro, e uma parte possui seguro, que é outra coisa”, explicou o técnico. O Sindicato, por meio de seu técnico em agricultura, tem percorrido as propriedades afetadas para orientar os produtores sobre os procedimentos necessários para acessar o benefício. A entidade também integra as reuniões do IBGE dedicadas ao acompanhamento da safra no município. Na próxima reunião, o Instituto deverá realizar um levantamento mais aprofundado para definir com precisão o percentual de perdas da atual safra de soja em Santo Augusto.
Para além do prejuízo provocado pela seca, Pommer chama atenção para outros dois fatores que agravam ainda mais a situação econômica dos produtores nesta safra: os royalties de sementes — especialmente os cobrados pela tecnologia Roundup Ready 7,5 — e o alto preço do diesel. Ambos oneram o custo de produção e comprimem ainda mais a margem de quem já enfrenta uma colheita abaixo do esperado. “O que dificulta mais, além da seca, são os royalties 7,5 e o alto preço do diesel, que vêm abaixar ainda mais a rentabilidade do agricultor nesse momento”, resumiu Pommer. A combinação de produtividade reduzida em parte das lavouras, custos elevados de insumos e combustível configura um cenário de forte pressão sobre a renda de quem produz no campo em Santo Augusto nesta temporada.
