Instalação da Sala das Margarida completa um ano na região

Ambientes especializados da Polícia Civil qualificam o atendimento

A Polícia Civil do Rio Grande do Sul inaugurou entre os dias 20 e 21 de março do ano passado, diversas Sala das Margaridas na região. Na oportunidade, a iniciativa chegou aos municípios de Santo Augusto, Três Passos, Tenente Portela, Campo Novo e Chiapetta com a proposta de humanizar o atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, completando hoje um ano de atendimento na região.

O delegado Bruno Chaves de Lima, titular da Delegacia de Polícia de Santo Augusto destaca que a Sala das Margaridas representa uma mudança de paradigma dentro das estruturas policiais. “A existência de uma Sala das Margaridas possibilita um ambiente menos austero do que o policial convencional, trazendo à vítima a sensação de acolhimento e de atendimento personalizado. Trata-se de uma violência muito peculiar, que tem a aptidão de abalar significativamente o psicológico da mulher”, afirma.

Pensado para ser reservado, acolhedor e seguro, o ambiente busca evitar a chamada revitimização — quando a vítima é obrigada a reviver repetidamente situações traumáticas ao relatar os fatos. Nesse contexto, o depoimento deixa de ser apenas uma recordação dolorosa e passa a representar, também, um passo importante na ruptura do ciclo de violência.

“A narrativa precisa ser entendida não como simples revisitação de fatos, mas como um processo de libertação, em um espaço preparado para lidar com todas as questões que envolvem esse tipo de violência”, pontua o delegado.

Ele reforça ainda que a iniciativa vai além de uma política pública simbólica. “A Sala das Margaridas é uma bandeira importante no enfrentamento à violência de gênero, além de ser um instrumento de efetivação de direitos fundamentais”, coloca.

Mesmo sem contar com uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), Santo Augusto passou a oferecer um atendimento diferenciado, capaz de encorajar vítimas a buscarem ajuda. Tanto que, em um ano de funcionamento, foram registrados 99 encaminhamentos de pedidos de medidas protetivas de urgência ao Poder Judiciário. “O ambiente especializado contribui para desmistificar a ideia de que a vítima será atendida de forma fria ou desinteressada. A violência doméstica traz consequências que vão muito além do crime em si e exigem um olhar atento e qualificado”, explica o delegado Bruno.

Entretanto, embora não tenha sido observado aumento expressivo nos registros após a implantação da Sala das Margaridas, o delegado avalia que o impacto da iniciativa tende a crescer de forma gradual. “A tendência é que, com o tempo, mais mulheres se sintam seguras para procurar a Polícia Civil. Mas, acima de tudo, buscamos que a atuação do Estado seja dissuasória, contribuindo para a redução desse tipo de crime”, ressalta.

Ele também destaca que muitos agressores têm sido encaminhados, por determinação judicial, a grupos reflexivos com acompanhamento psicológico — medida que busca conscientizar e evitar a reincidência.

De acordo com a autoridade policial, em sua maioria, os casos mais recorrentes registrados envolvem ameaças, frequentemente relacionadas ao sentimento de posse por parte dos agressores, sobretudo após o término de relacionamentos. “Muitos homens não aceitam o fim da relação e tentam controlar a vítima por meio de intimidações”, observa. Outro fator presente em diversas ocorrências é o consumo de álcool, que pode desencadear alterações comportamentais e episódios de violência.

Independentemente da motivação, o delegado chama atenção para o chamado ciclo da violência doméstica, um padrão que tende a se repetir ao longo do tempo. “Há um aumento gradual da tensão, seguido pelo ato violento e, posteriormente, pelo arrependimento e tentativa de reconciliação. Esse ciclo se repete, criando uma dinâmica difícil de romper sem intervenção”, explica.

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