Cacique destaca cultura e desafios indígenas em São Valério do Sul
Comunidade do Inhacorá prepara programação especial e reforça valorização das tradições no Dia dos Povos Indígenas
A proximidade do Dia dos Povos Indígenas, celebrado neste domingo, 19 de abril, mobiliza comunidades em todo o país e, na Região Celeiro, não é diferente. No interior de São Valério do Sul, a comunidade indígena do Inhacorá organiza uma programação especial que busca valorizar suas tradições, promover a integração com a sociedade e reforçar a importância da preservação cultural.
Em entrevista ao jornal O Celeiro, o cacique Adilson Policena compartilhou reflexões sobre o significado da data, o cotidiano da comunidade e os desafios enfrentados pelos povos indígenas na atualidade. Para ele, o momento vai além da celebração e representa também resistência e continuidade histórica. “Para nós, é um dia especial para todas as comunidades indígenas. É um momento de deixar um pouco de lado os problemas e as lutas do dia a dia, que são constantes, e celebrar, encontrar amigos, confraternizar. Nossa vida sempre foi de luta, então esse é um dia para aliviar esse peso e se divertir um pouco”, afirmou.
A preservação da cultura indígena é apontada como um dos pilares da comunidade. De acordo com o cacique, manter tradições, costumes e saberes é fundamental para garantir a identidade do povo e a continuidade de sua história. “A gente mantém nossa cultura desde os primeiros contatos com os não indígenas. Preservar a identidade é um compromisso nosso, porque é isso que nos diferencia. A cultura identifica o nosso povo, e por isso trabalhamos sempre para manter viva essa tradição”, destacou.
No caso do povo Kaingang, presente na região, essa preservação se dá por meio da oralidade, das práticas culturais, da organização comunitária e da relação com o território. Segundo o cacique, a própria origem do povo está ligada a movimentos históricos que ainda hoje fazem parte da memória coletiva. “Segundo estudos e relatos dos nossos antepassados, o povo Kaingang tem origem na Argentina e, com o tempo, migrou para o sul do Brasil, atravessando o Rio Uruguai. Nossos antigos falam sobre essa travessia, chamada de ‘Potnor’, que significa passagem”, explicou.
Desafios ainda presentes
Apesar da riqueza cultural e da forte organização comunitária, os desafios seguem presentes no cotidiano das famílias indígenas. Entre as principais demandas estão o acesso a políticas públicas adequadas à realidade da comunidade. “O desafio é diário. A gente busca políticas públicas que respeitem nossa realidade, principalmente nas áreas de saúde, educação, agricultura e habitação. Muitas vezes, essas políticas não são pensadas para a nossa especificidade, e isso dificulta o nosso desenvolvimento”, ressaltou.
Outro ponto destacado é a necessidade de ampliar o conhecimento da sociedade sobre os povos indígenas, como forma de combater o preconceito e promover o respeito. “Temos respeito pela sociedade não indígena e buscamos integração. Mas ainda falta compreensão da nossa cultura. Muitas vezes, o desrespeito vem da falta de conhecimento sobre o nosso modo de vida”, avaliou.
Ao refletir sobre a data e o papel das novas gerações, Adilson Policena destaca a importância de manter viva a identidade indígena, mesmo diante das transformações da sociedade contemporânea.
“O dia 19 de abril é um momento de celebrar e agradecer aos nossos antepassados, que conseguiram preservar nossa cultura ao longo de mais de 500 anos. Hoje, seguimos nessa luta, mantendo nossa identidade e contribuindo com a sociedade brasileira. Temos que continuar firmes, preservando aquilo que nos torna únicos”, concluiu.
Programação especial
A programação especial organizada pela comunidade do Inhacorá é um dos momentos mais aguardados do ano. O evento, que será realizado nesta sexta-feira, 17 de abril, no ginásio de esportes da comunidade, deve reunir moradores, visitantes de municípios vizinhos e autoridades regionais.
A programação inicia às 10h, com a abertura oficial, seguida de pronunciamentos às 11h. Ao meio-dia será servido almoço comunitário — com orientação para que os participantes levem pratos e talheres. Durante a tarde e à noite, o público poderá acompanhar apresentações musicais, com destaque para o show da Banda Destaque Nacional, das 14h às 18h, e, à noite, o encerramento com a Banda RenovaSom, das 20h à meia-noite.
“É um momento de confraternização entre a comunidade indígena e toda a região. Recebemos muitas pessoas de fora e também autoridades. É um dia de celebração, reflexão e valorização da nossa cultura, além de mostrar como a comunidade está organizada e pensando no futuro, principalmente das nossas crianças e jovens”, destacou o cacique.

