Durante 50 anos, o bloco de notas e a caneta foram os fiéis companheiros do repórter Lúcio Steiner – instrumentos suficientes para registrar acontecimentos, contar histórias e transformar o cotidiano das cidades da região em memória impressa. Ao longo de cinco décadas, ele testemunhou mudanças políticas, econômicas e sociais, registrou conquistas, tragédias, festas, despedidas e recomeço; foi redator, repórter, fotógrafo, diagramador, revisor e até entregador de jornal, vivendo o jornalismo em todas as suas etapas, desde a apuração até o jornal chegar às mãos do leitor.
No último dia 05 de março, o jornal O CELEIRO celebrou seus 56 anos de história, em circulação desde o ano de 1970, exceto em hiato temporal de seis meses. Destes, Lúcio participou dos último 50 anos. Sua Carteira de Trabalho foi assinada no dia 1º de abril para a função de redator sob a chancela do então gerente da empresa Breitenbach F. Hartmann LTDA, editora do semanário, Arnildo Schmitt. Na sequência temporal passa pelo jornal Atualidades e retorna ao jornal O CELEIRO depois deste voltar a circular em Santo Augusto, estando por completar 50 anos logo ali, no final do corrente mês de março.
“Talvez passe por inútil divagação avaliar um veículo de comunicação social como um processo de valores sob o compromisso de construir uma estrutura que propicie o desenvolvimento humano, por extensão, propondo alternativas que permitam escolhas pessoas livres. Da consideração resulta a necessidade do veículo de comunicação tomar consciência de sua responsabilidade no meio em que circula”, avalia o veterano repórter.
“Este despertar, seguramente, conduz o leitor por um caminho que o suscita a questionar o território em que mendra e o circunda, potencializando a natureza valorativa do testemunhar, do documentar e do fazer pensar, o melhor caminho para ampliar horizontes, solidificar a cidadania, foram entrando no desenvolvimento das comunidades, avançar, enfim, jornal não é apenas tinta no papel!”
De reportagens
Lúcio recorda uma das reportagens mais ousadas para a peculiaridade da época, publicada na edição de 4 de agosto de 1978. Ainda ecoava pelo Brasil o tacão ditatorial quando se alardeou uma tal de peste suína africana, inclusive com suínos sendo sacrificados em Três Passos. O transcurso dos dias chegou a estabelecer sérias dúvidas sobre os fatores pertinentes. Somando-se as incoerências nos discursos oficiais e a falta de ciência comprobatória que justificasse medidas tão drásticas, isto é, sacrificar animais simplesmente, O Celeiro, em capa e páginas seguintes, mancheteou em letras garrafais: “Peste africana, uma farsa”. A sentença nunca foi contestada.
Outra reportagem marcante trouxe grande dificuldade no interior de Miraguaí, quando de um crime misterioso no Vale do Manoelão. Acompanhado de Evaldino José Schmitt (em memória), como fotógrafo, enfrentaram um território pedregoso e íngreme que limitou a mobilidade, oferecendo dificuldade até mesmo para deixar o local. Na área, um indivíduo havia convencido outro a deixar-se matar sob o argumento de recuperar um tesouro. Para quem colecionou O Celeiro, a abordagem pode ser relida na contracapa da edição de 14 de setembro de 1978.
Conheça Lúcio Steiner
Nascido em 09 de junho de 1946, em Três de Maio/RS, tem como base familiar Três Passos, onde os pais passaram a residir em julho de 1945, na Linha São Francisco, próximo do local onde o padre Manuel Gomes Gonzales e o coroinha Adilio Daronch foram martirizados. É filho de pequenos agricultores, Arthur e Irma, tendo como irmão Abílio Steiner.
Lúcio passou a infância e a adolescência frequentando escola e igreja na sede distrital de Padre Gonzales. Foi normalista pela então Escola Normal Evangélica em São Leopoldo, sequenciando na Escola Normal Rural Presidente Getúlio Vargas, hoje Sociedade Educacional Três de Maio (SETREM). Mesmo tendo conteúdo do curso de formação de regentes do ensino primário rural, não abraçou o magistério, preferindo permanecer na propriedade dos pais.
No final do mês de março de 1976, por alardeado como bom na arte de produzir narrativas, recebeu convite para integrar a equipe editorial do jornal O CELEIRO, com quem permaneceu próximo de 10 anos. No ano de 1985, em agosto, foi acolhido como redator/repórter do jornal Atualidades, então com sede em Santo Augusto. Com o Atualidade, sob o comando do jornalista Selito Antônio Schmitt, esteve durante 30 anos, até 2015.
No ano de 2000, por convite insistente de Pedro Valmor Marodin, que havia adquirido a marca O CELEIRO depois de ter deixado de circular em Três Passos no final de 1988, passou a ter presença nos dois periódicos simultaneamente. Hoje, mesmo aposentado, permanece no mais longevo semanário da região como colaborador tentando minimizar a ocorrência de erros nos conteúdos e trazer narrativas fora de curva e abordagens referentes à memória histórica no contexto regional.
Ao longo dos 50 anos, além de redator, foi repórter, fotógrafo, diagramador, revisor e até entregador de jornal. Além disso, participou de cinco obras do professor Odilon Gomes de Oliveira.
