Figura folclórica, pessoa simples e prestativa, o Coronel Bicaco

Homem simples, bem relacionado, compadre de todos, muito prestativo, caridoso com a pobreza, sempre pronto para ajudar quem precisasse, o Coronel Bicaco, patrono do município que está completando seus 62 anos de emancipação político-administrativa. Sua simplicidade no falar, caracterizada pela inversão de palavras nas frases e a consequente mudança de sentido gerava muitas anedotas que ele não só admitia como ria junto com seus compadres. Tal postura o levou a um patamar de popularidade, com muitos causos pitorescos, como o que segue, acontecidos ou a ele atribuídos, alguns relacionados no livro O CORONEL BICACO (2004), de Odilon Gomes de Oliveira, página 98 e seguintes, editado sob o patrocínio e permissão dos netos Anilto Gomes de Souza, José Augusto Amaral de Souza, Jacy Luciano de Souza e Paulo Luciano de Souza.
PENICOS, GROSAS DE PENICOS
Penico, também chamado de urinol, não havia bolicho que não o tivesse para vender. Era muito grande a procura, principalmente no inverno, pois seu uso dispensava a pessoa de sair de casa, à noite, para urinar. Usava o penico e o deixava debaixo da cama para esvaziá-lo no dia seguinte.
Aconteceu, porém, uma novidade. Chegou na venda do Coronel Bicaco um viajante, vindo de São Paulo, que oferecia penicos alouçados de vários tamanhos, com virolas coloridas, sem tampa e por preço de fábrica. O coronel gostava de tudo o que tivesse bom preço e fosse novidade. Mas, o vendedor disse que só podia aceitar pedido por grosas.
“Grosa? Deve ser a maneira como os paulistas chamam a dúzia”, pensou. E pediu 12 grosas de cada tamanho e cor. Satisfeito, o viajante encerrou o pedido e saiu faceiro com o sucesso da venda.
No tempo combinado começaram a chegar os vagões com a encomenda na Estação Rio Branco (Catuípe) e de lá para o Faxinal da Guarita eram carretas e mais carretas cheias de penicos. Inclusive, seu irmão, o Carrocha, que era transportador contínuo do Coronel Bicaco, repassou cargas para outros carreteiros, preocupado com a entrega sem demora.
Recebidas as primeiras carretas com penicos e a notícia de que a quantidade era grande, o Coronel mandou um estafeta a cavalo passar um telegrama nestes termos: “Não mande mais penicos pt Cel. Bicaco”.
Acontece que o estafeta gostava do carteado e da canha. Já tomou alguns tragos na Boca da Picada e passou a noite jogando e bebendo num bolicho das imediações da Esquina Quinzote. Chegou cedo em Catuípe, mas havia perdido no jogo e faltou dinheiro para pagar o telegrama. A solução foi cortar uma palavra. Perguntado pelo telegrafista qual a palavra devia cortar, disse: “Corte a primeira que é bem pequenininha”.
E o telegrama ficou assim: “Mande mais penico pt Cel Bicaco”.
Passados alguns dias, nova enxurrada de penicos e os carreteiros se derretendo de alegria, pois o frete era grande e para gente que pagava.
Coisa rara acontecer, mas aconteceu. O Coronel meio que se desesperou. Chamou o estafeta, homem de sua confiança e, exigindo pressa, mandou-o novamente à Estação Rio Branco para outro telegrama: “Parem de mandar penicos pt. Cel. Bicaco”.
O mensageiro viu que a coisa não estava ficando boa para seu lado. Pegou uns trocados dos seus e pensou: “Agora vou consertar o estrago que fiz”.
Chegando em Catuípe procurou o telegrafista, entregou a mensagem e recomendou: “Agora o senhor acrescenta no começo aquela palavrinha que eu deixei fora na outra vez que tive aqui”.
E o telegrama ficou assim: “Não parem de mandar penicos pt Cel. Bicaco”.
Conta a tradição oral do povo, que no inventário do Coronel um item também significativo era um estoque de várias grosas de penico. Isso que não teriam sido considerados os que usou para proteger os palanques das cercas, colocados como um capacete para protege-los da chuva.

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