Tradição da macela une fé, saúde e gerações em Santo Augusto

Uma tradição simples, mas carregada de significado, segue viva em Santo Augusto e em municípios da região Celeiro: colher macela antes do nascer do sol na Sexta-feira Santa. Mais do que um costume, o gesto reúne fé, saberes populares e a conexão com a natureza, sendo passado de geração em geração.

Segundo a crença dos mais antigos, a planta colhida ainda com o orvalho da madrugada, em um dia que remete à morte de Jesus Cristo, possui suas propriedades medicinais intensificadas. Popularmente, acredita-se que a macela se torna mais eficaz no tratamento de problemas digestivos, inflamações e também como calmante natural. Em algumas comunidades, o costume vai além da colheita e inclui a bênção da planta nas igrejas, simbolizando proteção para o lar.

De acordo com a nutricionista Solange Montanha, a macela possui diversos benefícios à saúde. Entre eles, a ação calmante, que ajuda a reduzir ansiedade e melhorar o sono, além de propriedades anti-inflamatórias, digestivas e até de auxílio à função hepática. O chá da planta, feito com flores secas, é a forma mais comum de consumo. Ainda assim, ela alerta para o uso moderado e cuidados específicos, como no caso de gestantes.

Apesar das propriedades e da tradição, a colheita exige atenção. A recomendação é evitar locais contaminados, como beiras de estradas ou áreas próximas a lavouras com uso de agrotóxicos, garantindo assim a segurança no consumo.

Em Santo Augusto, a tradição segue sendo cultivada com carinho por famílias como a de Vera Lúcia Langner. Todos os anos, ela mantém o costume de colher a planta na localidade da Costa do Turvo antes do amanhecer.

“Dizem que a macela deve ser colhida com o sereno, por isso é preciso ir antes do sol nascer, para que a planta ainda esteja coberta pelo orvalho”, explica Vera, ao recordar os ensinamentos recebidos ao longo da vida.

A macela colhida é guardada para o ano inteiro e compartilhada entre familiares e amigos. “As pessoas que já conhecem o costume sempre pedem para guardar um pouco. É algo que a gente faz com carinho”, conta.

Mais do que um hábito, o momento da colheita é também de espiritualidade. Emocionada, Vera descreve a experiência como um instante único: “É um momento de muita paz. Enquanto estou ali, em silêncio, fazendo a colheita, também estou em oração. É quando sinto o coração mais próximo de Deus”.

A preocupação, no entanto, também faz parte dessa história. A redução das áreas naturais tem dificultado encontrar a planta em abundância. “As matas estão se acabando, e uma tradição tão bonita pode ir se perdendo com o tempo”, lamenta.

Mesmo diante dos desafios, Vera mantém viva a tradição e faz questão de transmiti-la aos filhos, Giovana e Luiz Gustavo. “Se a gente não preservar e não ensinar, isso pode acabar. Por isso, faço questão de passar adiante.”

Entre fé, cuidado com a saúde e memória afetiva, a colheita da macela segue resistindo ao tempo em Santo Augusto e na região Celeiro — sustentada por histórias, crenças e pelo desejo de manter viva uma tradição que vai muito além da planta.

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