O presente trabalho tem como objetivo investigar o universo do mangá enquanto linguagem artística e cultural, com ênfase em seu desenvolvimento no Brasil e nos desafios enfrentados por artistas nacionais que buscam reconhecimento dentro desse campo. Diferente dos quadrinhos ocidentais, o mangá apresenta características narrativas, estéticas e estruturais próprias, que o tornaram uma das formas de expressão visual mais influentes do mundo contemporâneo. Compreender sua origem, evolução e impacto é fundamental para analisar como essa linguagem se estabelece fora do Japão e como contribui para a construção de uma identidade criativa brasileira.
A motivação para a escolha deste tema surge da vivência do próprio autor enquanto leitor e produtor de mangá, bem como da constatação da baixa valorização das produções nacionais quando comparadas às obras estrangeiras. Ao longo do desenvolvimento do trabalho, buscou-se refletir sobre questões centrais como: a origem do mangá, a formação de seu traço característico, sua chegada ao Brasil e as dificuldades relacionadas à publicação e ao reconhecimento de obras brasileiras. Embora não seja possível esgotar todas essas problemáticas, a investigação permite lançar um olhar crítico sobre a indústria do mangá e sobre o percurso árduo enfrentado por artistas que desejam atuar nesse mercado.
Para compreender o mangá contemporâneo, é necessário retornar às origens de seu traço e de sua linguagem visual. As ilustrações que podem ser consideradas precursoras da arte sequencial japonesa datam de períodos anteriores à consolidação do mangá como mídia, com influências provenientes da China entre os séculos II e V. Posteriormente, essas referências chegaram ao Japão, onde foram assimiladas e ressignificadas de acordo com os contextos culturais locais. Durante os séculos VI e VII, a forte influência da civilização chinesa sobre a corte imperial japonesa resultou na incorporação de diversos elementos culturais, como técnicas agrícolas, sistemas de escrita e formas artísticas.
Nesse contexto, o desenvolvimento da escrita japonesa, com a adoção dos ideogramas kanji e a criação dos alfabetos hiragana e katakana, contribuiu diretamente para a formação de uma cultura visual narrativa. As primeiras manifestações artísticas que se aproximam do que hoje entendemos como mangá surgiram em formatos como os emaki, pergaminhos ilustrados que narravam histórias por meio de imagens sequenciais. Obras como o Chōjū-giga, conhecido por retratar animais com características humanas, demonstram o uso do humor, da crítica social e da exageração de traços, elementos que se tornariam fundamentais na linguagem do mangá.
O termo “mangá”, etimologicamente composto pelos ideogramas man (algo informal ou despreocupado) e ga (imagem ou desenho), pode ser traduzido como “desenhos irreverentes” ou “imagens livres”. No Japão, a palavra passou a designar qualquer forma de narrativa em quadrinhos, enquanto no Ocidente consolidou-se como um rótulo associado a um estilo específico de desenho e narrativa oriundo da cultura japonesa. Essa distinção evidencia como o mangá ultrapassou seu contexto de origem, tornando-se uma linguagem global, capaz de dialogar com diferentes culturas sem perder suas raízes.
A arte tradicional japonesa, em seus estágios iniciais, apresentava um caráter mais realista, com representações de figuras históricas, cenas do cotidiano e personagens mitológicos. Com o tempo, essas representações passaram a incorporar elementos estilizados, como traços exagerados e narrativas visuais mais dinâmicas, abrindo caminho para a evolução do mangá moderno. Assim, o surgimento do traço do mangá não pode ser compreendido como um evento isolado, mas como o resultado de um longo processo histórico e cultural que combina tradição, adaptação e inovação.
Acadêmico Felipe Gomes do Nascimento
TCC apresentado no curso de Artes Visuais – Bacharelado – na Universidade de Passo Fundo.
